NOSSA CONDIÇÃO HUMANA A PARTIR DO ESPAÇO.
Alan Kay (1)
Meus exemplos favoritos de ciência antiga, e uma maravilhosa metáfora para o que a ciência faz, são as tentativas da cartografia de precisão, iniciada pelos gregos, perdida por milhares de anos e retomada no século 15. No final dos 1700s, as pessoas se encantavam ao poder comprar um globo de bolso d“O Mundo Como Visto do Espaço". 200 anos mais tarde, nós fomos ao espaço, olhamos para o mundo, tiramos fotos dele, e vimos exatamente o que os cartógrafos do século 18 já haviam descoberto.
Todos os processos e conhecimento científicos tem essa caracteristica: são tentativas de “ver" e representar coisas com precisão a partir de posições vantajosas, que não são parte do nosso senso comum sobre como deve ser o mundo, - “tornar o invisível um pouco visível". Na maior parte da história humana, nossas teorias sobre nós mesmos e sobre o mundo em que vivemos foram formadas principalmente com base em crenças infundadas, transformadas em histórias interessantes. Há umas poucas centenas de anos, conhecemos uma nova maneira de ver, que nos permitiu ver o mundo físico como se fosse visto “do espaço", com muito pouca perda no processo. No século 21 precisamos não só fazer isso para o mundo físico como também compreender a condição humana integral como se fossemos “observados do espaço", sem as histórias interessantes, mas com uma profunda compreensão de como lidar com as nossas naturezas e formações.
Mapas, assim como todas as nossas representações de idéias, são bastante arbitrários, e não tem automaticamente nenhum vínculo intrínseco com a precisão. Por exemplo, aqui estão 3 mapas. O primeiro é um mapa da idade média, o segundo é o mapa do “Senhor dos Anéis" de Tolkien, e o terceiro é um mapa do Deserto de Mojave. O mapa medieval " mostra o mundo como eles achavam que deveria ser", e inclui o Jardim do Eden (em direção ao Oriente Distante no topo). O Mediterrâneo (o meio do mundo) é a parte vertical do “T-O", Jerusalém está no centro do mundo, na junção do “T", e a bota da Itália é só uma protuberância (
É importante entender que do ponto-de-vista da lógica tradicional, nenhum desses mapas é “verdadeiro", porque nenhum deles está numa correspondência exata, um-para-um, com todos os detalhes que eles tentaram mapear. Em outras palavras, cada um desses mapas é um tipo de história que foi escrita principalmente em imagens, ao invés de palavras. Num mapa nós podemos usar a lógica perfeita - por exemplo: se Roma está ao norte de Alexandria, e Paris está ao norte de Roma, então Paris está ao norte de Alexandria. Essa lógica interna funciona perfeitamente para os três mapas. A Matemática também é um tipo de sistema de mapeamento que se ajustado para ser perfeitamente consistente consigo mesma de fato, inclui a construção de mapas como esses (“Medição Terrestre" em grego é Geometria).
Quando nós tentamos relacionar os mapas com aquilo que são supostos “representar” o que esta “fora", encontramos dificuldades e concluímos que nenhum deles é “verdadeiro" no sentido da verdade que pode ser obtida dentro de um mapa. E se cairmos no Deserto de Mojave, cujo mapa “não-verdadeiro" você escolheu para levar consigo? Muitas concepções do “falso" realmente fazem diferença no pensar moderno.
Do nosso ponto-de-vista, a razão de ensinar o novo pensar" que floresceu nos últimos 400 anos não é proporcionar mais empregos técnicos, ou “manter o pais forte", ou mesmo fazer cidadãos melhores. Estes são bons resultados que são sub-produtos do novo pensar, mas as razões reais tem a ver com sanidade e civilização. Se os mapas nas nossas cabeças são diferentes do que “está lá fora", então estamos, na melhor das hipóteses, o que Alfred Korzybski definiu como “insanos". Nossa definição de insanidade real é simplesmente quando os mapas nas nossas cabeças, por quaisquer razões, se tornam tão diferente do que “está lá fora" (incluindo o que está nos mapas das outras pessoas) que se torna notável e algumas vezes perigoso. Uma vez que não podemos conseguir mapas que sejam exatamente verdadeiros, estamos sempre um pouco insanos com relação ao mundo físico. E desde que nossos mapas internos não são compartilháveis diretamente, nós somos ainda mais insanos em relação aos mapeamentos que cada um faz do mundo, incluindo nós mesmos. Porque nós pensamos em termos de nossos mapas internos - um tipo de representação teatral das nossas crenças pessoais - não é muito descabido dizer que vivemos não numa realidade, mas num sonho consciente, ilusório e alucinatório que gostamos de chamar de “realidade". Definitivamente devemos construir a versão “menos falsa" que pudermos disso!